Santos Cervejeiros!

santos

Todos os comerciantes, todas as causas e paixões tem seus santos padroeiros, mas, poucos têm tantos quanto os fabricantes e amantes da cerveja. Transformar água em vinho é um feito extraordinário, porém, os quase 20 santos patronos relacionados à todas as coisas ligadas à cerveja foram muito além, transformaram água de banho em cerveja, conjuraram canecas cheias do nada, multiplicaram quantias ínfimas em barris, usaram uma fabricação mágica para erradicar doenças e até extinguir incêndios.

Num plano mais terreno, esses “santos cervejeiros”, que eram, em sua grande maioria, monges e freiras, foram pioneiros nas técnicas de fabricação e promoveram o consumo entre os mal nutridos.

A canonização de forma oficial não foi instituída pelo Vaticano até o século 11, porém, já no século 2, a veneração de virgens, mártires, monges e milagreiros pela população comum já estava à toda. Cultos e venerações cresceram e se espalharam, agregando antigas lendas e grupos de pessoas começaram a reivindicar esses santos como seus.

Mas, porque tantos patronos da cerveja e suas profissões correlatas como agricultores de lúpulo, cervejeiros e barmans? A nova religião era importante. Cerveja era importante. Juntos, cerveja e patrono formavam uma aliança sagrada, alcançando um patamar que outras religiões e bebidas não poderiam alcançar. Em um mundo onde água limpa e dietas balanceadas eram desconhecidas, a cerveja fornecia uma bebida segura e saudável. E, para os homens e mulheres das ordens monásticas, com suas regras rígidas como apenas uma refeição ao dia e pedras como travesseiros, tal substância nutriente era particularmente bem-vinda e necessária.

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São Benedito

São Benedito (480 – 547 d.C.), o pai do monaquismo e santo cervejeiro não oficial, determinou que os monges deveriam ser auto suficientes em todos os sentidos. Uma vez que, a eles, era permitido consumir generosos 5 litros ao dia, incluindo, naturalmente, sua provisão de álcool. As regras beneditinas também determinavam que os monastérios funcionassem como estalagens, onde viajantes pudessem descansar. Conforme os monastérios cresciam, suas cervejas tornavam-se mais conhecidas e procuradas. Isso e a necessidade de ser auto suficiente motivaram os monges a seguirem o modelo de pequenos empresários. Eles começaram a vender cerveja de qualidade ao público e, de repente, havia santos cervejeiros em todos os lugares.

Alguns, como Santo Agostinho (353 – 430 d.C.), tornaram-se patronos cervejeiros simplesmente pela grande quantidade que consumiam. Outros, como Santa Brígida (457 – 525 d.C.) eram mais moderados no consumo mas não no amor pela cerveja. Ficou famosa por seu amor à cerveja e seus poderes de produzir cerveja de forma espontânea. Era dito que ela abastecia 18 igrejas com apenas um barril.

Milagres como transformar água em cerveja e barris sem fundo eram parte da crença em Santa Brígida, mas, as santas não tinham o monopólio dos milagres da multiplicação. Os três Arnaldos, Arnaldo de Metz (580 – 640d.C.), Arnaldo de Soisson (1040 – 1087 d.C.) e Arnaldo de Oudenaarde (morto em 1100 d.C.), tinham suas versões dos milagres da multiplicação.

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Santo Agostinho

 

No curso de sua vida, Arnaldo, Bispo de Metz, ensinou aos pobres sobre os benefícios de beber cerveja. Tão forte era sua fé na cerveja que, em meio a uma epidemia, mergulhou seu crucifixo em um barril e convenceu a população local a beber apenas desse recipiente, o que levou à extinção da doença.

Arnaldo de Soisson é o patrono dos colhedores de lúpulo, provavelmente porque pregava na região de Brabant, hoje conhecida como Bélgica, onde o lúpulo era cultivado. Arnaldo tem seu milagre da multiplicação feito após o desabamento de um monastério, reduzindo assim, o suprimento de cerveja dos monges a apenas alguns barris. Arnaldo pediu a ajuda de Deus e os barris foram multiplicados, deixando os monges e a população muito felizes.

Arnaldo de Oudenaarde pertencia a uma ordem militar antes de tornar-se monge Beneditino. Um de seus milagres foi utilizar cerveja para reviver seus soldados caídos em batalha, levando-os, assim, à vitória.

Realizar milagres cervejeiros não era a única maneira de tornar-se um santo cervejeiro. Outros homens e mulheres foram santificados por suas contribuições aos processo de fabricação da cerveja. Uma dessas mulheres foi Hildegarde von Bingen (1098 – 1179 d.C.), freira beneditina e um dos mais sábios e excepcionais seres humanos que já existiu. Entre compor músicas, escrever poemas, aconselhar o Papa e analisar as escrituras, ela escreveu dois estudos científicos sobre medicina e natureza. Em um deles, o Physica Sacra, ela descreve o valor do lúpulo na fabricação de cerveja, apontando que seu uso evita a putrefação e aumenta a vida útil da cerveja.

Museum - Hildegard von Bingen

Hildegarde von Bingen

Outra conexão com o lúpulo é do século 10, onde o Rei Venceslau trabalhou para difundir o cristianismo. Mas, o que muitos não sabem é de sua contribuição ao cultivo do lúpulo. Devido à sua rigidez na punição aos ladrões de lúpulo e sua proteção aos agricultores, tornou-se o patrono dos cervejeiros Tchecos.

Alguns santos usavam a cerveja para converter fiéis. Com a cerveja ao lado de Deus, tudo era possível. São Columbano (543 – 615 d.C.), um missionário irlandês na Alemanha, certa vez, encontrou um grupo de adoradores de Odin que iriam sacrificar um barril de cerveja como oferenda a seu Deus. São Columbano intercedeu, argumentando que isso seria um desperdício, que o Deus cristão amava a cerveja, mas, apenas quando consumida em seu nome. Impressionados, muitos se converteram à essa nova religião.

A maioria dos santos cervejeiros promoviam os benefícios físicos e espirituais da cerveja, eram inovadores e especialistas no processo de fabricação ou realizavam milagres da multiplicação. Hoje em dia é difícil de imaginar essa conexão entre cerveja e Cristianismo. Temos, sim, a imagem de monges belgas esquecidos pelo tempo fabricando suas cervejas em monastérios antigos. Com a reforma e o enfraquecimento do poder da Igreja, a produção de cerveja tornou-se, de vez, de domínio público, terminando assim os dias dos santos cervejeiros.

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