Desvendando Mitos do Estilo India Pale Ale (IPA)

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Muitas pessoas chamariam de loucura, mas, os loucos chamam de arqueologia viva. Se algo do passado não existe mais, precisamos recriá-lo para podermos entender melhor seu funcionamento, o que faz com que alguns vivam como camponeses da era do bronze, outros como legionários romanos. Nós vamos recriar a maior jornada marítima já feita, que já não existe há mais de 140 anos.

Tudo começou com uma questão óbvia sobre a história do estilo: toda cervejaria tem uma India Pale Ale (IPA) “autêntica”, afirmando que ela é uma cerveja maturada e desenvolvida em uma longa e tumultuada viagem marítima, da Inglaterra até a Índia. Entretanto, nenhuma cervejaria moderna mandou suas IPAs nessa jornada. Então, como eles sabem se é autêntica ou não? Quem sabe qual é o sabor de uma “verdadeira IPA”? O problema com as histórias cervejeiras é que elas tendem a serem contadas da mesma forma que toda boa história: de boca em boca, de Pub a Pub. Pessoas dramatizam, detalhes são perdidos e assim um momento de inspiração se torna um fato crucial. A história da cerveja é vasta, cheia de buracos e armadilhas. Após muitas pesquisas, aqui estão os maiores mitos sobre essa fascinante lenda.

1- A IPA foi inventada pelo cervejeiro inglês George Hodgson, em 1785hodgsons label

Esse é um engano comum. George é comumente creditado como inventor da IPA pois foi o primeiro cervejeiro a ter a supremacia no mercado indiano. A IPA se desenvolveu das Ales de outubro, e muitos cervejeiros tiveram a ideia, de forma independente, de adaptar essas Ales para o mercado indiano. Qualquer mestre cervejeiro sabe que uma cerveja com altos teores de álcool e lúpulo, desenvolvida para envelhecer por 10 anos, teria uma maior chance de sobreviver a uma viagem de 6 meses pelo mar. Portanto, a família Hodgson ganhou destaque pelas relações comerciais com a East India Company, não por ter criado um estilo novo.

2- A IPA se tornou popular na Inglaterra após um naufrágio, em 1827, no qual o carregamento de IPAs espalhou-se pela praia próxima à cidade de Liverpool.

Essa história está descrita no livro de Alfred Molyneaux, chamado Burton and its Bitter Beer, escrito 50 anos após o suposto evento, sem nomes específicos, datas ou fontes. O naufrágio provavelmente ocorreu, portanto, é provável que muitos carregamentos de cerveja tenham aparecido na costa inglesa mas, é improvável que esse incidente específico tenha difundido o gosto pelo estilo. Duas grandes cervejarias já comercializavam Strong Pale Ales antes de 1827, e, mesmo assim, o termo “IPA” só foi utilizado para descrever o estilo após 1833, comprovando sua evolução gradual.

3 – A IPA tornou-se notável pois outros estilos, como o Porter, chegavam estragados à Índia

Antigos anúncios em jornais indianos revelam que os anglo-indianos desfrutavam de Porters, Brown Ales, Cyder, e até Pale Ales. Mesmo quando a IPA atingiu seu zênite, nos anos 1870, as Porters ainda eram importadas em grandes quantidades. As IPAs não eram as únicas que conseguiam sobreviver à tão infame jornada. O mais provável é que a IPA foi o estilo que mais agradou ao paladar dos anglo-indianos.

4- As IPAs eram acondicionadas em barris com levedura viva, sofrendo um vigoroso processo de fermentação durante a viagem até a Índia.

Todo cervejeiro que escreveu um guia de produção de IPA, no século 19, concorda que a pior coisa que poderia acontecer à cerveja era a presença de levedura residual no barril, criando assim, uma segunda fermentação. Mesmo as técnicas de filtragem não sendo tão eficientes como atualmente, os fabricantes tentavam retirar o máximo da levedura possível antes do envase. Assim mesmo, entre 8 a 10% dos barris explodia durante o percurso.

IPA_Barrels

5 – Após o teste de qualidade, cervejas abaixo do padrão eram despejadas no porto de Calcutá

Ok, isto realmente aconteceu. Existem registros de testemunhas oculares, porém, de forma extremamente rara. A cerveja era, verdadeira e rigorosamente, testada no porto. Porém, as cervejas rejeitadas eram leiloadas por valores baixos. Mandar qualquer coisa para a Índia custava muito caro, mesmo as coisas “estragadas” precisavam recuperar parte de seu valor.

6 – As IPAs eram frequentemente enviadas à Índia e trazidas de volta antes de serem consumidas na Inglaterra

Por coincidência, tentativa e erro a jornada deixou a cerveja em perfeitas condições ao desembarcar na Índia. Mesmo para uma cerveja robusta, a viagem de regresso seria desastrosa, fora o fato de ser uma carga muito cara. Era um bom lastro na ida, porém, os navios retornavam com tecidos e chá, ou até mesmo ópio. Seria simplesmente inviável economicamente.

7 – O estilo IPA é um estilo bem definido. Imperial IPAs, Double IPAs e etc. são bem diferentes do estilo original que as inspirou

Isso não é bem um mito, é mais um “como você sabe? ”. Os aficionados por cerveja ficam muito passionais quando discutindo sobre o que constituí uma “verdadeira” IPA, quais maltes e lúpulos devem ser usados, quão forte deve ser e como deve ser acondicionada. A verdade é: as Pale Ales evoluíram e se adaptaram ao mercado indiano por, ao menos, 50 anos antes que alguém se referisse a elas como IPAs. Ninguém sabe qual era a receita original, ou mesmo se existiu uma cerveja que poderia ser considerada a receita original. IPA, Brown Ale, Porter e outras cervejas mais leves são facilmente distinguidas entre si, fora isso, existe uma enorme variedade dentro de cada estilo que também sofrem alterações com o passar do tempo.

Então, qual a lição que podemos tirar de tudo isso? A cerveja é uma criação viva, orgânica, que não pode ser restrita. Sempre teremos um cerne de mistério, o que só aumenta nosso fascínio por ela.

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